Oswald canibal, de Benedito Nunes

 

Em memória de Dário Azevedo, meu amigo de toda vida.

Lançado em 1979 pela editora Perspectiva na Coleção Elos, coordenada pelo próprio Jacó Guinsburg, este pequeno livro ocupa um lugar bastante especial no conjunto dos escritos de Benedito Nunes. No ano de sua primeira edição, podemos dizer que a recepção do modernismo paulista já estava definida em suas linhas gerais, mas não encerrada. É o que este precioso livro nos ajuda a entender. Benedito lançava luzes inéditas sobre a obra de Oswald de Andrade e anunciava isso nas primeiras linhas ao dizer que “A história do Modernismo brasileiro, que apenas começou a ser traçada, ainda se ressente da falta de um estudo metódico das relações desse movimento com as correntes da vanguarda literária e artística europeia de que se aproximou” (1).

É verdade que no primeiro capítulo do livro, “Antropofagia e Vanguarda – acerca do canibalismo literário”, Benedito vai explorar a questão do Modernismo paulista e de sua relação com as vanguardas europeias, sobretudo com o Futurismo, o Surrealismo e o Dadaísmo. No entanto, com o zelo que lhe é peculiar, isto é, citando constantemente os comentadores que lhe antecederam, Benedito introduz já nesta primeira seção aquilo que vai diferenciar “Oswald canibal” de seus antecessores: o lugar de Oswald na vida literária e filosófica brasileira. Contra a leitura de Heitor Martins em seu texto “Canibais Europeus e Antropófagos Brasileiros” – que, segundo Benedito, reduz a antropofagia de 1928 “às matrizes do canibalismo europeu” (p. 13) –, o livro pretendia “num espírito de diálogo, tão vegetativo quanto universitário, explicar por que não nos parece que o antropófago brasileiro tenha copiado os canibais europeus com os quais confraternizou” (pp. 13-14).

Se lermos hoje o livro de Beatriz Azevedo, “Antropofagia: palimpsesto selvagem” (2), por exemplo, pode parecer que o lugar de Oswald sempre foi o do protagonismo vanguardista, profundamente cioso das questões nacionais. Mas não apenas ela como todos os que invocam Oswald, de José Celso Martinez Corrêa a Eduardo Viveiros de Castro, têm uma pequena dívida de gratidão com “Oswald canibal”, direta ou indiretamente. Meu objetivo aqui é simplesmente retomar o que o próprio Benedito escreveu ainda no primeiro capítulo, para assim tecer algumas considerações que ainda hoje me parecem importantes. Diz ele ao se referir ao tipo canibal, pensado a partir do seu significado em Oswald:

Amostra de uma sociedade outra, de um outro homem que ainda nos assombra, e que a ciência antropológica se esforçou então por relegar aos noturnos desvãos da mentalidade pré-lógica, essencialmente mágica, o canibal foi também uma dessas imagens fortes, de forte prestígio onírico, favoráveis à condensação de impulsos agressivos, silhuetados de encontro à má-consciência burguesa, da qual Nietzsche já falara, antes que Freud houvesse estabelecido a filogênese da consciência. Abriu-se, de Nietzsche a Freud, o caminho que fez do canibalismo o signo de uma síndrome ancestral, ou, para usarmos a linguagem de Oswald, uma semáfora da condição humana, fincada no delicado intercruzamento da Natureza com a Cultura (pp. 12-13).

Talvez ainda não seja óbvio para o leitor incauto qual é o nó da passagem acima.  No limite, esse equilíbrio entre natureza e cultura permanece um desafio insolúvel, mas a grande contribuição do livro, como tentarei mostrar aqui, é pensar sobre isso a partir da obra de Oswald, e não só, porque ao apontar o débito do modernista com dois dos grande teóricos da modernidade, Benedito estava a um só tempo reavivando a perspectiva antropofágica em toda sua extensão, mas também lançando luzes sobre um ato vivaz – o do canibal – que poderia, e pode ainda hoje, nos auxiliar a pensar sobre o que é, afinal, nacional.

É por essa razão que não gostaria de retomar aqui questões de crítica literária stricto sensu – por exemplo, de como a obra de Oswald se relaciona com o pré-modernismo e com a vida literária que sucedeu o movimento de 1922 –, antes mirar uma questão aparentemente marginal: o lugar da obra de Oswald de Andrade no conjunto da produção filosófica brasileira no século XX. A meu ver, essa é uma das grandes contribuições de “Oswald canibal”.

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A imagem antropofágica, que estava no ar, pertencia ao mesmo conjunto, ao mesmo sistema de idéias, ao mesmo repertório comum, que resultou da primitividade descoberta e valorizada, e a que se integravam, igualmente, na ordem dos conceitos, a mentalidade mágica, de Levy-Bruhl e o inconsciente freudiano. É muito significativo que então a vanguarda literária, em boa parte sob a influência de Nietzsche, pensador que marcou a formação intelectual de Oswald de Andrade, e para quem a consciência do homem sem ressentimento equivalia à capacidade fisiológica de bem digerir – se tivesse apossado do canibal, dele fazendo um símbolo, no mesmo momento em que a Psicanálise começaria a desnudar, no homem normal, civilizado, comportamentos neuróticos, que podem gravitar em torno da mesma simbologia da interdição, presente nos atos de antropofagia ritual (p. 18).

Em um movimento sutil, Benedito atribuía à tarefa de Oswald uma ação de alta complexidade: ao mesmo tempo antenado com o que havia de mais vanguardista nas artes e na literatura da Europa, nosso antropófago também transpunha para o Brasil a filosofia mais disruptiva de seu tempo – Nietzsche e Freud –, com a função inversa à de uma assimilação acadêmica pura e simples, ou seja, como verdadeiro alimento a ser deglutido e, lembrando a imagem clássica de Nietzsche, ruminado até o ponto de gerar novas perspectivas; mas o que seria afinal uma antropofagia filosófica? Na verdade, é em “Oswald canibal” que encontraremos diversas passagens onde o modernista é tratado como filósofo. Mas não qualquer filósofo. Basta vermos os trechos tomados em conjunto, atentando para o último deles.

O romancista e o poeta que ele era não apenas desapareceriam por trás de uma nova máscara – a do pensador e a do filósofo (p. 55).

Quando a ela retomou, representando a comédia do filósofo que sempre quis ser, e para, coisa tão a seu gosto, dar resposta aos ex-companheiros de luta política [...] (p. 56).

[...] continuarão sendo marxistas as principais categorias de que nosso romancista filósofo se vale para interpretar a história (p. 65).

 

Não devemos, porém, incriminar Oswald de Andrade, que não foi um filósofo puro, nem sociólogo ou historiador, por esses pecados de inconsistência logica e de improvisação intelectual (p. 76, grifo meu).

Nesse sentido, Benedito estava próximo de Augusto de Campos, que, quatro anos antes, em 1975, afirmara que “a Antropofagia, que – como disse Oswald – ‘salvou o sentido do modernismo’, é também a única filosofia original brasileira e, sob alguns aspectos, o mais radical dos movimentos literários que produzimos” (3). Mas afinal o que significava chamar Oswald de filósofo? E por que ele não era um filósofo “puro”, como diz Benedito, em razão de suas “inconsistências lógicas” e de sua “improvisação intelectual”?

Hoje é questão de ordem pensar a filosofia brasileira à luz das críticas ao eurocentrismo que nos domina e que cerceia uma reflexão que deveria estar, desde sempre, ocupada em enfrentar problemas internos, e não em se dedicar a solucionar questões que a história da filosofia lançou a si mesma desde tempos remotos e nunca as levou a termo. Não é à toa, portanto, que o pensamento que Oswald escolheu digerir seja o do canibal alemão Nietzsche, que subverteu a filosofia idealista da qual, na juventude, chegou a se sentir um continuador. Lembremos rapidamente do antídoto que ele inoculou em seu pensamento para escapar da teia arrebatadora da filosofia tradicional: a cultura franco-italiana. Nietzsche viajou a Sorrento, na Itália, logo depois de se decepcionar com os resultados do primeiro Festival de Bayreuth, o festival organizado para louvar Wagner, “o redentor”. O ano era 1878. Dali em diante tudo mudaria.

 

O contato com a cultura italiana, cujo ápice em 1888 culminaria com o elogio arrebatado da “Carmen” de Bizet, transformou o pensamento de Nietzsche. Não precisamos revisitar sua obra completa para entender o que estava em jogo dali em diante. Contra a lógica, o sistema, a verdade, o dogma e tudo o que disso deriva, Nietzsche se voltava para uma cultura vívida, intensa, fantasiosa e sadia; era assim que ele entendia a cultura latina. O filósofo se torna um sátiro depois desse arrebatamento? Longe disso. Permanecerá um pensador cioso, cultivando uma responsabilidade ética rígida em relação ao homem e à vida, mostraria que as duas coisas não são incompatíveis – a liberdade e o rigor –, mas seu pensamento, derivado daquele contato, jamais seria a mesmo, tendo ganhado um empuxo em direção a problemas que só se revelariam em toda sua complexidade no século XX, onde a filosofia e a cultura entranhadas uma da outra trariam à cena as obras de T. Adorno, W. Benjamin, G. Deleuze, M. Foucault e G. Agamben, para ficarmos apenas em alguns exemplos incontornáveis.

Feita essa pequena digressão, voltemos a Oswald para tentar entender como essas pontas se unem ao contexto brasileiro a partir da interpretação de Benedito Nunes.

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Alternam-se os ritmos da destruição e da construção; o senso do futuro modifica o entendimento do passado. Faz-se apelo até mesmo a um passado trans-histórico, que confina com o futuro utópico, como aquele passado pré-cabralino a que, paradoxalmente, a “antropofagia” oswaldiana, em 1928, antepõe e pospõe ao presente, e no qual o tempo sem memória de um mito mergulha no tempo esperançoso de uma utopia a realizar. Não nos admiremos, portanto, que o espírito de vanguarda, atento para as realidades atuais e para as realidades possíveis, invertesse o seu prospectivismo e fosse levado a interpretar-se, enquanto atividade fundadora, como um novo primitivismo (pp. 22-23).

A sugestão é clara: a razão instrumental levava o mundo para sua mais paradoxal catástrofe, o nazi-fascismo. Era preciso um passo atrás, um reordenamento de prioridades, um olhar global para os restos do humanismo. O Brasil, país periférico, depois de quatrocentos anos de colonização, fazia o primeiro movimento de reflexão sobre si mesmo. Sem poder estabelecer um parâmetro de comparação com as grandes economias do mundo – embora macaqueie comportamentos desde sempre –, precisa compreender sua singularidade, sua miscigenação, sua língua, sua cultura. Nada estava posto. Mário e Oswald, em um primeiro momento tão irmanados, se tornaram antípodas. Aceita a condição primitivista, mediada pelo passo atrás de Nietzsche e pela sugestão implosiva das vanguardas, eis o que sugere Oswald na leitura avant la lettre de Benedito: “[...] era o primitivismo que nos capacitaria a encontrar nas descobertas e formulações artísticas do estrangeiro aquele misto de ingenuidade e de pureza, de rebeldia instintiva e de elaboração mítica, que formavam o depósito psicológico e ético da cultura brasileira” (pp. 25-26).

A antropofagia, como se vê, não era tanto a sugestão de assimilação do outro, mas antes de qualquer coisa a percepção de nossa própria possibilidade de representação do imprevisível, do inaudito, do inusual. Não é casual que toda arte nova – em sentido amplo – produzida no Brasil a partir dali possa ser timbrada a partir desse princípio antropofágico oswaldiano, mesmo quando dele não depende. Bastaria citarmos o Concretismo, o Tropicalismo e a dramaturgia de José Celso Martinez Corrêa para entender do que estamos falando. Benedito aponta então para os dois manifestos onde esses princípios foram anunciados e lançados ao futuro, o Manifesto Pau-Brasil e o Manifesto Antropófago (sugiro a leitura do já citado livro de Beatriz Azevedo sobre este último).

Como em Nietzsche, é fundamental entender que a hybris filosófica, crítica e artística de Oswald não é auto-destrutiva. Muitas vezes não passa de equilíbrio. Menos que seu duplo germânico, nosso modernista buscava um ponto norteador em um pêndulo até mesmo conservador, pelo menos para os padrões de Nietzsche: “O primitivo era a imprevisibilidade, o irracional, que ‘ao menor descuido vos fará partir na direção oposta ao vosso destino’; o moderno, a previsão que ordena, a razão que organiza, a ‘prática culta da vida’, cujo regime a civilização técnico-industrial impunha” (p. 29). Benedito confirma minha desconfiança algumas páginas adiante: “O primitivismo de Oswald de Andrade em Pau-Brasil, tende para uma estética do equilíbrio” (p. 33).

O que impressiona nesse livro lapidar é sua clareza em relação ao lugar de Oswald como um intérprete vigoroso do Brasil, décadas antes que a antropologia, a filosofia e a história se impusessem um necessário movimento autocrítico. Se hoje saberes consolidados precisam colocar questões fundamentais novamente sobre a mesa – como nossa formação, nossa identidade volátil, nosso lugar no conjunto das nações, eventualmente nossa responsabilidade diante do mundo –, é porque de várias maneiras ainda estamos presos a um modelo contra o qual a antropofagia se insurgiu. Surpreende que, em 1979, Benedito já compreendesse esse problema muito antes das modas acadêmicas, justificadas ou não: “Para Oswald, a originalidade nativa compreendia os elementos populares e etnográficos da cultura brasileira, outrora marginalizados pelo idealismo doutoresco da intelligentsia nacional no século XIX. Mas incluía também ‘o melhor de nossa tradição lírica’, forçosamente romântica – e a inteira tradição linguística que o uso ideológico da língua portuguesa no Brasil neutralizara” (p. 33).

O livro ainda explora a condição religiosa ambígua de Oswald, os diversos movimentos da antropofagia no interior da sua obra, alcança a tese de livre-docência nunca defendida na USP, “A crise da filosofia messiânica” – que ainda deve ocupar minha atenção em outro momento – e diversas questões literárias, filosóficas e estéticas do autor de “Memórias sentimentais de João Miramar”. Sobre todos os paradoxos de Oswald, Benedito não tem dúvidas: “Há coerência na loucura antropofágica – e sentido no não-senso de Oswald de Andrade” (p. 37).

 

De tudo o que podemos extrair de “Oswald canibal” ainda hoje, algo, no entanto, não cansa de me surpreender: a conexão que Benedito estabelece entre Oswald e Nietzsche. São incontáveis as apropriações deste último nas mais diversas formas de expressão, sejam de ordem artística, ideológica, filosófica e política. Todos se servem de Nietzsche para auto-exaltar feitos e delírios. A tentação de chamar Oswald de nietzschiano pode se dar por impulso, por licenciosidade, por pressa ou desleixo, mas quando Benedito deixou isso dito de maneira tão clara e rigorosa, nossa coragem e nossa tarefa se reafirmam sem medo...

A atitude antropofágica, firmada no Manifesto de 1928, sofreu em A Crise da Filosofia Messiânica, uma forte influência do esteticismo nietzschiano. Muito próximo do Nietzsche de A Origem da Tragédia, para quem a existência, em sua tragicidade, torna-se um fenômeno estético, e a arte um meio de “devorar” o conteúdo trágico da vida, a antropofagia, nessa versão de 1950, é uma filosofia trágica, que incorpora a psicologia orgiástica integrante dos ritos de sacrifício, ligados às matrizes primordiais das relações religiosas entre o homem e o universo. O homem da cultura antropofágica, assumindo a dureza de Zaratustra, afirma dionisiacamente a sua vontade de poder; “devorando” o que há́ de trágico na existência, transforma todos os tabus em totens, isto é, em valores humanos e em obras de arte (p. 66).

Henry Burnett

Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade Federal de São Paulo

Programa de Pós-Graduação em Filosofia, Universidade Federal do Pará

Como citar esse texto:

BURNETT, Henry. Oswald canibal, de Benedito Nunes. Beneditonunes.org, 26 jun. 2021. Disponível em: https://www.beneditonunes.org/henry-burnett. Acesso em: dia, mês e ano.

(1) Cf. Benedito Nunes, Oswald canibal. São Paulo: Perspectiva, 1979, p. 7. Doravante indicarei somente a página.

(2) Cf. Beatriz Azevedo, Antropofagia: palimpsesto selvagem. São Paulo: Cosac & Naify, 2016.

(3) Cf. Augusto de Campos, Revistas re-vistas: os Antropófagos. In: Poesia Antipoesia Antropofagia & Cia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015, p. 153-154. O grifo é meu.